O GATO E O JOIO - IV
... empilhando podres em colecção ...
O GATO E O JOIO - IV
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Paulo Passos
Psicólogo clínico (Braga, Portugal)
Publicado no Psicologia.pt a: 2019-10-14 | Idioma: Português
"Comprar
gato por lebre”
“Separar
o trigo do joio"
Diariamente,
Maria Augusta e grande parte da massa dos seus colegas, engendravam meios e
mecanismos de poderem ser alvos, de um momento que fosse, do protagonismo que
servia de combustível para a sobrevivência de quem tinha enveredado por essa
via de acesso às pretensas ascensões profissionais.
Era
esgotante, mas era impossível desistir.
A
desistência não cabia na cega luta por uma direcção ou qualquer outro poleiro
de nível acima ao já em pouso.
O
problema estava centrado no facto de toda a energia ser consumida nestes
meandros. O que devia ser feito era, por norma, desviado do objectivo ou, na
melhor das hipóteses, executado na sequência de um grande jogo do empurra.
Acotovelavam-se sem quaisquer constrangimentos.
Dentro da
universidade o conflito não espreitava, estava instalado de poltrona ao lado do
cinismo.
Travestido
sim, mas instalado e com raízes profundas.
Aclarar o
conflito era a derrota.
Não havia
embaraço algum em tomarem café (cafés) depois de uma cena de pugilado de
olhares e acusações, no silêncio dos forçados e tensos sorrisos.
Tensos e
forçados, mas pertencentes ao plano de sobrevivência.
Maria
Augusta nunca perdia a oportunidade de se apoderar (para acrescentar à cábula)
de mais uma citação, um título, ou um aditivo de seu interesse.
O
manancial de referências era um dos motores do seu empenho.
Pouco
tinha, do que suposto existir para uma profissional com expressão e
enriquecedoramente livre.
Estava
perfeitamente integrada na indústria dos títulos que caracterizava o que fazia
enquanto docente, nessa mesma instituição, onde tão facilmente se acessa ao
grosseiro e corrosivo plágio (assunto silenciosamente diluído, obviamente,
pelos longos corredores repletos de gabinetes).
Maria
Augusta, como muitos dos seus colegas, referia-se sempre, a este assunto de
forma condenável, cautelosa e merecedora da atenção canalizada para a
repreensão acesa e inconcebível, tentando manter a protecção do prestígio
institucional (que habitava).
Havia
quem questionasse se o prestígio era o institucional ou eram os dos melindrosos
individualizados…!
De
qualquer modo, não era conveniente existirem beliscos visíveis e muito menos
que transparecessem fora de portas.
Era-lhe,
no seu formal meio profissional e de modo corrente, atribuído o condão da
escrita enfeitada.
Maria
Augusta movia-se bem e com destreza no cenário formal das elaborações e
formatações de textos, jogando com as palavras de forma inteligente, mais
parecendo, até, estar em trabalho de decoração.
Fielmente
esgotava-se no universo das exageradas notas de rodapé.
Valorizados
(no arranjo do formato) eram os seus escritos, dentro da academia, mas, para
muitos outros, eram ocos em produção de utilidade não decorativa.
Tanto
abarrotava os textos com tão exagerado número de títulos e citações, com as
suas mais recentes apropriações registadas nos seus cardápios de cábulas
(impulsionadores fantasmas de um admirável cariz elevado de sapiência), que o
despropósito e a incoerência debitavam-se em transbordo.
Qual
gemidos emitidos entre dentes (ou pensamentos), eram comentários sobre rodapés
que teciam uns dos outros.
Tanto se
entrelaçou neste viciante jogo, abundante em sombreados de falseamento (mas
tudo ali estava assim alinhavado), que se tornou dependente e incapaz de
consciencializar que liberdades tinha o mundo para oferecer.
Também o
poderia habitar.
Mas
estava petrificada na mordaça.
Já não
era capaz.

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