O GATO E O JOIO - III
... empilhando podres em colecção ...
O GATO E O JOIO - III
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Paulo Passos
Psicólogo clínico (Braga, Portugal)
Publicado no Psicologia.pt a: 2019-09-09 | Idioma: Português
"Comprar
gato por lebre”
“Separar
o trigo do joio"
Maria
Augusta era mais uma criatura que se confundia com a banal promiscuidade entre
a ambição e a capacidade.
Tinha
leccionado diversas matérias, contempladas no currículo do curso da
universidade onde estava empregada.
Sentia um
já saturado e embaciado orgulho, mas que ainda alimentava o quase pleno
prestígio de realização, cuja ressonância lhe era constantemente canalizada
para a intimidade falseada e magoada, mas silenciada pela compulsão ao
disfarce, a que estava tão familiarizada.
Ainda assim,
continuava Maria Augusta, a fomentar a miraculosa utilitária mania, quase
fetichista, no seu enquadramento profissional.
Era uma
ferramenta em constante actualização e, tanto quanto transparecia das intrigas
internas ao seu serviço, era um elo de ligação geral das pessoas que ali se
moviam.
Quase
toda a gente tinha e sustentava essa ferramenta, protegida num secretismo
individualizado e fortificado.
Mais não
era do que um caderno com referências bibliográficas, títulos de livros, nomes
de autores, citações, máximas, premissas, enfim uma vasta panóplia auxiliar dos
segredos de cada um, materializados numa cábula crescente e auxiliar em todo o
percurso profissional
Era um
recurso constante, enfeitador do manancial redigido e oratório.
Titularia
(industrial) no seu esplendor.
O
conhecimento era muito mais amplo em títulos do que em conteúdos.
Da grande
maioria dos livros só o título e o nome do autor se tinham cruzado com o olhar
(às vezes… também a editora).
Mas isto
não era impeditivo para grandes divagações, grandes discursos, conversas,
comentários, expressões de deleite até, todos dignos de moldura. Poucos liam.
Liam apenas o essencial (um resumo, uma sinopse…) para construção da
confabulação, eventualmente necessária para transparecer num ou noutro
contexto.
Era uma
competição, eram homens e mulheres em silenciosas preces divinas, disfarçadas
de conhecimento, a ver quem exibia o primor da novidade mais clássica ou da
mais actual, constante no cadernito (agora em formato electrónico) e adquirido,
descoberto ou copiado em última hora.
O
sentimento partilhado estava tão entranhado pelo comportamento infantilizante,
de esconder o tesouro de cada um, que impedia que se tornassem conscientemente
maduras as atitudes dentro da universidade.
Um monte
de papéis na mão e um ar apressado, meio sério e longínquo, preferencialmente
com um lápis apontando subtilmente para os raciocínios que se vão fingindo ter,
serve eficazmente para representação de invejável qualidade na tarefa e com a
garantia de qualidade (ou de “excelência”, como em voga).
Império
da perícia neste disfarce, a que se fingiam alheios.
Cenário
montado… infausto elenco em palco.
Como
professora, Maria Augusta, era só mais uma que ia participando e vivendo neste
declarado enredo, entre os sorrisos das cores que a cada um fosse conveniente e
consumisse menos combustível humano.
Nisto
“também sou perita”, pensava de si, num invisível sorriso.
Tinha a
particularidade do exagero, que se reflectia igualmente na matéria de recolhas.
Era uma
acumuladora, tal como a compulsão para o coleccionismo.
Tinha
cadernos e cadernos cheios com tudo o que se possa imaginar que fossem títulos,
nomes de autores, excertos e citações.
Mas
impunha e cumpria a regra de apenas as consideradas grandes referências no assunto.
Tudo o que não fosse assim balizado, não constava nos cadernos das cábulas de
Maria Augusta, sendo considerados escritos que integravam a heresia e a ofensa
académicas, apenas por generalização do preconceito e não por terem sido
julgadas por leitura avaliativa.
Eram
inconcebíveis e proibidas, estava banalizado, tais misturas, no interior
daquelas domésticas (apesar de ferozes) guerras. Não havia brecha possível.
Desde que não estivessem balizados pelas medidas estipuladas nas ocasionais
valorizações institucionais, muito material escrito era condenado sem
julgamento. Um texto era crucificado, sem ter sido lido, apenas porque era
proveniente de alguém, lugar ou instituição, que constasse na rigorosa lista a
abater.
O
prestígio era o alcance geral e valia tudo para o conseguir, ou manter, ainda
que apenas por construção, subjectivamente, internalizada.
Despudor
de qualificação máxima.
Farsa de
boa roupagem.
Esbanjador
despudor… despudor ao público.

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