O GATO E O JOIO - II
... empilhando podres em colecção ...
O GATO E O JOIO - II
Em:
https://www.psicologia.pt/artigos/ver_cronica.php?o-gato-e-o-joio-ii&codigo=CR0032&area=
Paulo Passos
Psicólogo clínico (Braga, Portugal)
Publicado no Psicologia.pt a: 2019-05-26
| Idioma: Português
"Comprar
gato por lebre”
“Separar
o trigo do joio"
Floreado pelo insistente e competitivo aparato
maníaco, Maria Augusta narrava a sua história (convenientemente
divergente da história vivida), num cenário
viciado por um irredutível e acrítico formato bélico.
Nela,
para além de toda a indústria titular académica existente, constava tudo o que
era “pós”.
Eram
pós-graduações, eram pós-formações, eram pós-especializações e até
pós-sub-especializações, predominantemente, sublinhava, adquiridas em
universidades credenciadas socialmente, sobretudo internacionais.
(Vá-se lá saber como!).
Aliás,
Maria Augusta fazia questão de não ter nenhuma referência a formações que não
tivessem, no respectivo diploma, uma luminosa e brilhante ribalta circundante
do aparatoso logótipo da instituição, de invejável apreciação.
Este ornamentado manancial curricular (tão em voga) era o quase único responsável pelo excesso
de confiança que a assolapava, sobretudo nas aulas e, como tanto gostava, nas
exibições nos congressos em que participava. Nestes, quanto maior o nível de
importância por ela atribuído, menor a gradação da confiança.
Está de se ver que, se o nível de importância não fosse de topo,
na sua avaliação (mais social que outro qualquer registo),
o manifesto excesso de confiança ladeava, seguramente, o delírio e a bizarria.
Nunca Maria Augusta ficava até ao fim dos congressos, por ela
tabelados abaixo do topo. Nestes, apresentava a sua comunicação (nos formais trejeitos e cânones
escolares, exibidos com os apetrechos da mais encenada confiança) e
logo se retirava com o desprezo de segura vedeta.
Retirava-se
com a rapidez que era necessária à conveniente imagem de pessoa muito
requisitada.
Quase sempre, o intencional motivo que debitava para se ir
embora, era um avião para apanhar ou uma reunião agendada (no mínimo, de alto gabarito).
Assim
enfeitava a necessidade e o desejo de admiração e de grandiosidade, para além
de uma certa inveja que também estava no intento e que Maria Augusta admitia
gerar.
Acreditava,
quase piamente, na perfeição dos cenários por si criados, impedindo-se, assim,
de perceber que era a única pessoa a crer em tão banais e disparatados
disfarces.
As
delirantes viagens, invariavelmente para o estrangeiro e a convite de algum
meritíssimo colega académico, para integrar o programa de um, também,
meritíssimo evento, tinham o condão de esconder o café que iria tomar na
esplanada da esquina da rua onde morava.
Era ali,
já sentada, que se aliviava das dores nos pés que os sapatos de saltos altos
lhe causavam.
Tirava
apenas os calcanhares, numa disfarçada aflição, que pousava no rebordo traseiro
dos sapatos.
Os
latejantes joanetes, já libertados, ressoavam alívio sob a forma do suspiro
que, controladamente lhe saia pela boca.
(Quando sentia os calos apertados, reforçava a dissimulação e o
cinismo, crendo que se safava de mais um confronto.
Mas repetia-se até à exaustão das circunstâncias.
Maria Augusta, sabia em sintomas, mas não sabia em consciência,
que não pertencia à elite que ela balizava, mas que tudo fazia para se sentir
integrante do elenco dessa protagonização).
Esquecia-se
sempre que, tentar enfiar os deformados e doridos pés, novamente dentro da
forma dos sapatos, era um trabalho que nem a sua perícia em dissimulação
conseguia esconder.
Nunca
enxergava que o seu feitio não a favorecia perante a crueldade de tais
imposições corporais.
Traía-a o
corpo, escarrapachando-se nas feições as expressões do dolorido esforço.
Aos
desequilíbrios, tentava Maria Augusta, desviá-los de si e sem os entender.
As dores…
escondia-as num sorriso amordaçado.
Cambaleando
e de mente embaciada, ia-se traindo…!

Comentários
Enviar um comentário