O GATO E O JOIO - I
... empilhando podres em colecção ...
O GATO E O JOIO - I
Em:
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Paulo Passos
Psicólogo
clínico (Braga, Portugal)
Publicado no Psicologia.pt a: 2019-04-08 |
Idioma: Português
Lá estava… de bota roçando
o artelho e de joanete saliente.
Pescoço curto e a
adiposidade acrescida no busto e nas ancas, camuflada por um arraialeiro,
esvoaçante e comprido vestido, que a fazia sentir confiante e, delirantemente,
poderosa.
Lá estava… Maria Augusta.
Maria Augusta era uma
académica que, dentro dos limites da sua profissão, tinha a consideração
institucional desejada, devida à sua estratégica obediência ao formalismo
imposto, o que lhe conferia uma confiança legítima e protagonizada por uma
certa despreocupação, causada por uma certeza cega, impedindo a manutenção da
útil crítica.
Mas mais não era do que o
habitual esperado e comum da maioria dos seus colegas e do geral integrante da
vida académica, tida como profissional.
Salvo sejam as excepções,
tudo era, sobretudo, um papel a desempenhar num invólucro plastificado de
estatuto.
Prestígio, fama, admiração
e conquistas invejáveis, eram as intenções nas fundações de Maria Augusta.
Não sabia como iria
encontrar isso no meio profissional em que estava, mas sabia que iria
descobrir.
Não sendo limitada de
todo, no que se refere ao ajustamento avaliativo que, de sua conveniência,
passou a manter apurado, aprendeu que não podia, ali na universidade, reger-se
exclusivamente pelas peças que compunham a sua habitual roupagem.
Aqui, pensava, porque
reparava, exigia-se um outro disfarce.
Confiante na sua perícia
em dissimulação, sabia que tinha que integrar no seu traje regional a farda que
decora o academismo.
Insaciavelmente receptiva
ao disfarce, facilmente percebeu quais os itinerários psicológicos a que tinha
que recorrer e que tinha que percorrer.
A isto se obrigou, sem
esforço, Maria Augusta.
Posicionar-se de modo mais
polido e menos exuberante, nas suas exigências mais caprichosas, dentro do
emprego, passou a ser a norma.
Era uma condição.
Percebeu que exuberância
excessiva e pouco polimento, no manifesto, facilmente se transformariam em
obstáculos à sua integração profissional.
Evitar a catástrofe de se
cumprir a fatal hipótese de exclusão, tornou-se prioridade na sua vida.
O percurso é selectivo e
competitivo, pensava, mas não é difícil.
É um percurso que está
travestido de impedimentos e de penoso trabalho, mas isto é apenas uma
camuflagem, uma encenação intrínseca que dava jeito, cogitava.
Só tinha que se vestir de
rigor, em académica.
Muita parra e pouca uva
foi o aforisma que viu escarrapachado naquele meio.
Avaliou e interiorizou,
passando a ser, também, a sua invisível arma de precisão.
Nestes esquemas era ela já
catedrática.
Complicar o óbvio (!) - o
que era isso para Maria Augusta, sorria entre dentes.
Tinha-lhe apanhado o
jeito.
Controlando a
impulsividade, sem estoirar (está de se ver!), aprendeu a planificar.
Foi-lhe de extrema
utilidade.
Adquiriu novas ferramentas
de manipulação.
Mais severas, perigosas e
desumanas, sem dúvida, mas eficazes.
Mais civilizadas, dizia
para si e para seu gozo, acabando por se divertir.
Estava integrada.
A partir daqui o trabalho
seria o de cumprir as metas e em tempos mínimos.
Era uma escada que,
diziam, como que a demonstrar avisos e alertar os perigos de eventuais criações
de novos costumes. Tanto se sobe como se desce!
Essa seria a escada que
Maria Augusta tinha a garantia de apenas subir.
E rápido!
Tudo estava incutido na
teatralização.
O discurso (como convinha)
era o do rigor, da ciência, das noites não dormidas, do estudo intenso, das
infindas leituras, enfim da dura vida da seriedade académica.
A fotografia tinha que ser
a da conveniência.
Isto é para lactentes,
pensava Maria Augusta.
Nada que lhe tirasse o
sono.
Estava em casa.
Já achava graça ao ar de
superioridade que era obrigatório exibir por tanta alma, alterado no imediato,
como um simples trambolhão dos saltos, quando se cruzavam, inevitavelmente, com
alguém de respeito e admiração acrescidos.
A acta do reconhecimento
estava repleta de candidaturas, todas elas floreadas com as mais altas
condecorações e atributos vulgares no reportório académico.
O que era raro passou a
ser banal, de tanto badalado mérito.
Cada currículo era um
manancial de louvores e de acessibilidades conseguidas à luz das cabeças
adeusadas.
A confiança estava
instalada.
Tinha percebido o esquema
e pouco faltaria para também dar cartas.
Era apenas um cenário de,
mais ou menos, disfarçada guerra.
O que era isso para ela, quando
aos três anos já ia para o infantário toda esborratada de maquilhagem, posta
pela mãe.
Disfarces? Ensinar
disfarces a Maria Augusta!?
Como se ela não fosse
filha da sua mãe…!

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